Crescimento sem estrutura ameaça empresas do setor automotivo
Expansão acelerada expõe fragilidades em processos, liderança e padronização técnica
Reprodução Em fevereiro, a Fenabrave informou que os emplacamentos de veículos em janeiro de 2026 cresceram 7,4% na comparação com janeiro de 2025, mesmo com menor número de dias úteis. A Anfavea, por sua vez, registrou que os automóveis tiveram alta anual de 1,4% e os comerciais leves de 3% no início do ano, sinalizando um mercado ainda aquecido em segmentos de grande volume.
Quando esse movimento de expansão acontece, a pressão não recai apenas sobre vendas. Ela chega ao chão da operação, à liderança, à rotina de controle e à capacidade de manter padrão técnico à medida que a demanda sobe. Em setores automotivos especializados, onde o serviço depende de precisão, rastreabilidade, treinamento e consistência de execução, o crescimento sem base sólida pode abrir espaço para retrabalho, perda de controle, queda de qualidade e desgaste com o cliente. Esse tipo de fragilidade raramente aparece no primeiro momento da expansão, mas costuma se tornar visível quando o volume aumenta e a estrutura não acompanha.
Para o engenheiro de produção e empresário Eduardo de Mendonça, esse é um dos erros mais recorrentes em negócios que vivem fases de aceleração. “Muita empresa entende o crescimento como vitória automática, mas crescer sem processo, sem liderança preparada e sem padrão técnico pode ser o começo de um problema maior”, afirma. Segundo ele, a expansão só é saudável quando a operação consegue absorver o novo volume sem abrir mão de controle e previsibilidade.
Sua autobiografia mostra de forma concreta o que significa estruturar crescimento com base operacional. A Duo Blindagens começou em um espaço pequeno, com apenas cinco funcionários, depois migrou para uma estrutura dez vezes maior, ampliou a equipe, expandiu atendimento para vários estados e consolidou uma base de mais de 5.000 clientes.
Na visão de Eduardo, o ponto central não é frear o crescimento, mas organizar sua sustentação. “O problema não está em crescer rápido. O problema está em crescer sem transformar experiência em método. Quando isso não acontece, a empresa aumenta de tamanho, mas perde estabilidade”, diz. Para ele, empresas automotivas que operam em ambientes técnicos exigentes precisam amadurecer antes, durante e depois da expansão.
Entrevista com o especialista – Eduardo de Mendonça
Pergunta: O crescimento do setor automotivo em 2026 é necessariamente uma boa notícia para todas as empresas?
Eduardo de Mendonça: É uma boa notícia, mas também é um teste. Crescimento revela quem está estruturado e quem ainda opera no improviso. Quando o volume sobe, a verdade da operação aparece.
Pergunta: Qual é o risco mais comum em empresas que crescem sem estrutura?
Eduardo de Mendonça: O risco é perder controle sem perceber de imediato. A empresa continua vendendo, continua produzindo, mas começa a acumular erro, retrabalho, desgaste de equipe e queda de padrão.
Pergunta: O que precisa existir para uma expansão ser saudável?
Eduardo de Mendonça: Processo claro, liderança preparada, rotina de acompanhamento e treinamento constante. Sem isso, o crescimento pode até acontecer, mas não se sustenta bem.
Pergunta: Padronização técnica é realmente tão decisiva assim?
Eduardo de Mendonça: É decisiva porque ela tira a empresa da dependência do improviso. Padrão bem construído dá previsibilidade, melhora qualidade e protege a operação quando a demanda aumenta.
Pergunta: O que diferencia uma empresa que escala bem de outra que trava no meio do caminho?
Eduardo de Mendonça: A capacidade de transformar conhecimento em sistema. Quem consegue fazer isso cresce com consistência. Quem não consegue, cresce com vulnerabilidade.
O avanço do mercado automotivo em 2026 traz oportunidade, mas também seleção natural. As empresas que conseguirem combinar expansão com estrutura tendem a sair mais fortes. As que confundirem crescimento com maturidade podem descobrir tarde demais que volume sem base sólida cobra um preço alto.


