Empresas familiares avançam na profissionalização da gestão patrimonial e sucessória
Organização societária, preservação de ativos e planejamento de longo prazo ganham relevância entre grupos empresariais que buscam continuidade entre gerações
Reprodução A profissionalização da gestão patrimonial e sucessória ganhou força entre empresas familiares brasileiras. Em um ambiente de maior complexidade tributária, expansão regional de negócios e preocupação com continuidade entre gerações, grupos empresariais passaram a olhar para a organização de ativos como parte da própria estratégia corporativa.
O tema se tornou ainda mais relevante diante da representatividade das empresas familiares na economia. Estimativas amplamente utilizadas no mercado indicam que elas correspondem a cerca de 90% dos negócios no Brasil. Apesar desse peso, a continuidade ainda é um desafio: apenas uma parcela consegue atravessar a sucessão sem perda de valor, conflitos societários ou desorganização patrimonial.
A discussão também ocorre em meio a mudanças regulatórias envolvendo tributos sobre transmissão de bens e direitos. A partir de 2026, regras relacionadas ao ITCMD passaram a receber mais atenção de empresários, famílias e especialistas, reforçando a necessidade de planejamento antes que decisões patrimoniais sejam tomadas de forma emergencial.
Na leitura de Mellissa Pinto de Paula Kozlowski, que desde 2021 participa da estruturação de uma holding familiar voltada à organização de ativos, sucessão e governança patrimonial, o tema deixou de ser uma preocupação distante e passou a integrar a rotina estratégica de famílias empresárias que desejam preservar o que construíram ao longo dos anos.
“Quando uma família constrói patrimônio ao longo de décadas, ela precisa proteger não apenas os bens, mas também a história, os princípios e a capacidade de continuidade. A falta de organização pode transformar conquistas em disputas. Planejamento patrimonial não é sobre antecipar problemas, é sobre evitar que eles comprometam o futuro”, afirma.
Sua atuação nesse campo dialoga com uma realidade comum entre famílias empresárias: o crescimento do negócio costuma acontecer antes da formalização das regras patrimoniais. Primeiro vêm as lojas, os imóveis, os investimentos e as sociedades. Depois, muitas famílias percebem que precisam organizar juridicamente aquilo que já foi construído na prática.
“A empresa familiar não pode depender apenas da confiança entre parentes. Confiança é importante, mas precisa caminhar junto com clareza documental, definição de responsabilidades, organização societária e visão de longo prazo. Quanto maior o patrimônio, maior deve ser a disciplina na gestão”, explica Mellissa.
Entrevista
Por que a gestão patrimonial passou a ser tão importante para empresas familiares?
Porque muitas empresas crescem, acumulam imóveis, participações societárias e investimentos, mas não organizam esses ativos com a mesma disciplina usada na operação. Quando isso não é feito, a sucessão pode se tornar mais cara, lenta e conflituosa.
Qual é o papel de uma holding familiar nesse processo?
A holding pode ajudar a centralizar a administração de ativos, organizar a participação dos familiares e criar regras mais claras para preservação patrimonial. Ela não é uma solução automática, mas pode ser uma ferramenta importante quando está alinhada a um planejamento sério.
O que mais ameaça a continuidade de uma empresa familiar?
A falta de conversa estruturada. Muitas famílias evitam falar sobre sucessão porque acham que isso gera conflito. Na prática, o silêncio costuma gerar problemas maiores. Quando há planejamento, a família consegue discutir o futuro com mais maturidade.
Como equilibrar legado e profissionalização?
O legado precisa ser respeitado, mas também precisa ser protegido por processos. A história da família dá identidade ao negócio. A profissionalização garante que essa identidade consiga continuar mesmo quando novas gerações assumem responsabilidades.
A tendência é que a gestão patrimonial deixe de ser vista como um assunto restrito a grandes fortunas e passe a integrar a rotina de empresas familiares em diferentes fases de crescimento. Em um país no qual tantos negócios nascem de trajetórias familiares, preservar ativos, organizar a sucessão e definir regras claras tornou-se uma forma de proteger não apenas patrimônio, mas continuidade, empregos e legado empresarial.


